Carlos Alberto Faraco- Professor Titular de Linguística da Universidade Federal do Paraná
A gramática foi criação da cultura Greco-romana, já que foram povos apaixonados por questões de linguagem e suas reflexões nessa área nasceram de diferentes fontes, sendo as práticas políticas e jurídicas uma delas, marcadas por debates públicos acirrados. Nesses debates, os participantes tinham de desenvolver o domínio das habilidades de fala para sustentar bem seus argumentos e tentar vencer as disputas políticas ou jurídicas.
Nesse contexto, surge a retórica, que se dedicava a estudar a língua com o objetivo de sugerir as formas de melhor explorar seus recursos expressivos para conquistar a adesão do auditório. Estilo e figuras de linguagem foram temas tratados na retórica.
Paralelamente a esse estudo, os filósofos criaram uma análise de vários aspectos da língua grega como parte da construção da lógica; surge, então, a teoria de como se organiza o raciocínio válido: a lógica inclui uma discussão de juízos ( proposições) expressas por meio de sentenças da língua. Partindo dessa consideração, os filósofos elaboraram uma análise da estrutura sintática das sentenças, a partir das funções proposicionais: sujeito e predicado, e das classes de palavras que poderiam ocupar essas funções ( em especial substantivos e verbos, mas também adjetivos e pronomes), bem como dos diferentes elementos lexicais com função de conectivos.
Próximo da era cristã, os “gregos”, na cidade de Alexandria, se dedicaram a estudar a produção literária de seus autores consagrados, constituindo, dessa forma, uma tradição normativa do estudo da língua que ainda se instala no ensino, e que naquele momento histórico representou “uma solução intelectual” para a diversidade linguística.
Nessa diversidade, notamos que algumas formas têm mais prestígio (padrão) e outras são, ainda, desvalorizadas, desde a época dos gregos alexandrinos, na qual essa referência linguística padrão, ideal , se encontrava nos grandes escritores.
Como desdobramento desse processo, gregos alexandrinos criaram a gramática normativa com o objetivo de fixar padrões de correção, agregando três tradições: retórica, lógico-filosófica e normativa.
Se ainda cabe a questão: ensinar ou não ensinar a gramática, somente se justifica seu estudo se pudermos oferecer aos alunos condições para eles se familiarizarem com práticas sociais de linguagem relevantes para sua efetiva inserção sociocultural.
Ocorre que no século XXI a escola continua a ensinar um estado de língua que não existe mais há, pelo menos 700 anos, retomando o modelo grego, perpetuado pelos europeus.
Ensinamos a gramática conforme modelos ditados pelos portugueses, desconsiderando a realidade e não incorporando à gramática as transformações linguísticas. A elite conservadora passou a defender o discurso da unidade absoluta, uma vez que considera a existência de uma só língua e cumpre preservar sua pureza, que nos é dada pelos portugueses, seus proprietários. Essa luzitanização artificializou nossa referência linguística e gerou um fosso entre o modo como falamos em situações formais e o modo como escrevemos. Essa codificação foi artificial na origem e ficou congelada nas gramáticas, mas o padrão real falado continuou mudando, o que complica nossas relações com a norma padrão e seu ensino. Assim, criaram-se códigos que se autojustificam, que recusam a norma real, que desmerecem o trabalho linguístico dos escritores, que não conseguem tratar adequadamente da diversidade linguística e que excluem diversificações. Nessa imposição da norma cultuada, encontra-se a escola, onde está entranhado o ensino da língua de forma normativista e compromissado com a gramatiquice.
Devemos redirecionar nossas relações com o padrão, combinando diferentes práticas de seus escritores com aquilo que efetivamente se usa atualmente no Brasil na fala formal e na escrita, considerando que esse padrão é flexível e muda no tempo.
O ensino da gramática deve de estar pautado na reflexão sobre a estrutura da língua e sobre seu funcionamento social. Conhecer a norma padrão é parte integrante do amadurecimento das nossas competências linguístico-culturais. Trata-se de desenvolver uma atitude científica de observar e descrever a organização estrutural da língua. Só existe sentido em estudar gramática se os conteúdos gramaticais estiverem subordinados ao domínio das atividades de fala e escrita, se tiverem relevância funcional. O padrão constitui uma força relativamente unificadora , por isso tem certa estabilidade no tempo e transcende limites regionais e sociais, mas é uma dentre as muitas variedades da língua.
O que devemos fazer, então, é expor nossos alunos aos mais variados textos- revistas e jornais de boa qualidade e fundamentalmente os bons textos literários -para se atingir o domínio da norma padrão, objetivando a ampliação de horizontes e um domínio das atividades de fala e escrita.
Um comentário:
Marcly,
você acabou realizando uma síntese do artigo. Não era necessário. Propunha apenas um recorte na história da gramática entre nós.
Beijos,
Mazé
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