2009-05-27

Piaget-Conclusão

Capítulo de conclusão: Os fatores do desenvolvimento mental
INHELDER, Bärbel, PIAGET, Jean. A Psicologia da criança. Tradução de Octávio Mendes Cajado. São Paulo: Difel Editorial, 1985.

Até constituir o conjunto das operações concretas e das estruturas de cooperação, o desenvolvimento mental da criança passa sucessões de construções: esquemas sensório-motores, construção das relações semióticas, do pensamento e das conexões interindividuais, reconstruindo-os no novo plano da representação e ultrapassando-os.
Desde os 11-12 anos, o pensamento reestrutura as operações concretas, subordinando-as a estruturas novas.
Há uma integração de estruturas sucessivas, que conduz à construção da seguinte e permite dividir o desenvolvimento em grandes períodos, segundo os critérios:
1- a ordem de sucessão é constante; 2- cada estágio é caracterizado por uma estrutura de conjunto em função da qual se explicam as principais reações particulares; 3- as estruturas de conjunto são integrativas e não se substituem umas às outras, cada uma resulta da precedente, integrando-se a ela mais cedo ou mais tarde.
O questionamento final do autor seria reconhecer o mecanismo desse desenvolvimento. Não sendo possível precisar uma resposta, aponta quatro fatores gerais estabelecidos para a evolução mental:
1- que há uma estrutura física mínima necessária para que o desenvolvimento aconteça, em seguida, a maturação e garantir um número mínimo de experiência;
2- da necessidade do papel do exercício e da experiência adquirida na ação efetuada sobre os objetos. Existem dois tipos de experiência: a- a física; e b: a experiência lógico-matemática.
3- da importância do papel das interações e transmissões sociais- fundamental, mas insuficiente por si só.
4- que o plano pré-estabelecido é fornecido pelo modelo do pensamento adulto, mas a criança não o compreende antes de havê-lo reconstruído e ele mesmo é a resultante de uma construção não interrompida, devida a uma sucessão de gerações. O desenvolvimento deve tomar em consideração as dimensões ontogenética e social, no sentido da transmissão do trabalho sucessivo das gerações.
Esse mecanismo eterno é observável por ocasião de cada construção parcial e de cada passagem de um estágio ao seguinte: é um processo de equilibração, de auto-regulação, de sequência de compensações ativas do sujeito em resposta às perturbações exteriores e de regulagem ao mesmo tempo retroativa e antecipadora.
Piaget nos coloca que esses quatro fatores não são suficientes para a evolução intelectual e cognitiva da criança, que a afetividade constitui a energética das condutas. Não existe nenhuma conduta que não comporte fatores afetivos, mas não poderia haver estados afetivos sem a intervenção de percepções ou compreensão, que constituem a sua estrutura cognitiva. Os dois aspectos- afetivo e cognitivo- são inseparáveis e irredutíveis.
Os sentimentos comportam indiscutíveis raízes hereditárias sujeitas à maturação, diversificam-se, enriquecem-se e comportam conflitos e reequilibrações e auto-regulação. E essa equilibração por auto-regulação constitui o processo formador das estruturas.
Trata-se de um capítulo no qual o autor discorre sobre as etapas do desenvolvimento segundo os critérios científicos, mas de nada adiantará se não enxergarmos o indivíduo em sua totalidade- somos seres que necessitam de relações afetivas para podermos crescer. E isso dura a vida inteira. Compreender as etapas do desenvolvimento pode nos ajudar a transpor obstáculos diante do novo, sempre respeitando essa auto-regulação, acompanhada do equilíbrio afetivo.

O QUE É UM AUTOR- MICHEL FOUCAULT

O QUE ÉUM AUTOR? Michel Foucault


"O nome do autor não é, pois exatamente um nome próprio como os outros. [...] o nome do autor funciona para caracterizar um certo modo de ser do discurso [...]" (FOUCAULT, 2006, p. 273)

"O nome do autor não está localizado no estado civil dos homens, não está localizado na ficção da obra, mas na ruptura que instaura um certo grupo de discursos e seu modo singular de ser. Consequentemente, poder-se-ia dizer que há, em uma civilização como a nossa, um certo número de discursos que são providos da função “autor”, enquanto outros são dela desprovidos." (FOUCAULT, 2006, p. 274)

Selecionei alguns trechos que pudessem elucidar a compreensão dos trechos acima:
“ … o sujeito que escreve despista todos os signos de sua individualidade particular; a marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência; é preciso que ele faça o papel de morto no jogo da escrita....." (FOUCAULT, 2006, p.269)

“O que seria preciso fazer é localizar o espaço assim deixado vago pela desaparição do autor, seguir atentamente a desaparição do autor, seguir atentamente a repartição das lacunas e das falhas e espreitar os locais, as funções livres que essa desaparição faz aparecer.” (FOUCAULT, 2006, p.271)

“.. ele exerce um certo papel em relação ao discurso: assegura uma função classificatória; tal nome permite reagrupar um certo número de textos, delimitá-los, deles excluir alguns, opô-los a outros.” (FOUCAULT, 2006, p.273)

(o nome do autor) “.... indica que esse discurso não é uma palavra cotidiana, indiferente, uma palavra que se afasta, que flutua e passa, uma palavra imediatamente consumível, mas que se trata de uma palavra que deve ser recebida de uma certa maneira de que deve, em uma dada cultura, receber um certo status.” (FOUCAULT, 2006, p.274)


A partir do século XVIII, a função autor passa a ser necessária para os textos literários: quem escreveu, em que data, em que circunstâncias ou a partir de que projeto. Somente aceitamos o anonimato na qualidade de enigma.
Foucault propõe que o autor seja alguém que fica entre o texto e a realidade. Então, qual papel ele ocupa?
Arrisco uma imagem:

A imagem do autor poderia se assemelhar àquela dos pontos computadorizados de um outdoor: de longe, não enxergamos um ponto azul que aparece em todos os outdoors. No entanto, ao nos aproximarmos, percebemos a existência daquele ponto em todos os outdoors. O que ocorreu é que o autor organizou o seu discurso da forma como queria e aí está a questão do MODO DE SER- o autor quer dizer algo e o diz desta ou daquela forma porque assim é o que lhe parece. E esse tal ponto seria sua marca que aparece em seus discursos.

2009-05-20

A classificação dos jogos e sua evolução a partir do aparecimento da linguagem

PIAGET, Jean. “A classificação dos jogos e sua evolução, a partir do aparecimento da linguagem”. In: A formação do símbolo na criança. 3ªed. Rio de Janeiro: LTC, 1990.
Seleção de alguns trechos do capítulo:


“... se no adulto se conservam apenas alguns resíduos dos jogos de exercício simples (por exemplo, brincar com o sei aparelho de rádio) e dos jogos simbólicos (por exemplo, contar uma estória), o jogo de regras subsiste e desenvolve-se mesmo durante toda a vida (esportes, xadrez, jogos de cartas etc.). “ (Piaget, 1990, p.182)

“... o jogo de regras é a atividade lúdica do ser socializado.” (Piaget, 1990, p. 182)

“ ... além da regularidade, há na regra uma ideia de obrigação que supõe, pelo menos, dois indivíduos. “ (Piaget, 1990, p.183)

Em resumo, os jogos de regras são jogos de combinações sensório-motoras ( corridas, jogos de bola de gude ou com bolas etc.) ou intelectuais ( cartas, xadrez etc.), com competição dos indivíduos ( sem o que a regra seria inútil) e regulamentados quer por um código transmitido de gerações em gerações, quer por acordos momentâneos.” ( Piaget, 1990, p.185)

“... quanto mais a criança se adapta às realidades físicas e sociais, menos se entrega às deformações e transposições simbólicas, visto que, em vez de assimilar o mundo ao seu eu, submete progressivamente, pelo contrário, o eu ao real.” ( Piaget, 1990, p. 186)

Se, verdadeiramente, o exercício é devido ao prazer decorrente de novos poderes e capacidades adquiridas pela atividade própria do sujeito; se, realmente, o simbolismo lúdico é, sobretudo, assimilação do real ao eu e reforço dos mesmos prazeres por submissão fictícia de todo o universo físico e social, então esse duplo processo de extinção dos jogos iniciais em proveito da construção adaptada e da evolução dos jogos de regras, únicos resíduos da imensa variedade e abundância do jogo infantil, tornar-se-á facilmente explicável.” (Piaget, 1990, p.187)

Interessante estudar esses processos dos jogos, as etapas pelas quais passamos, conscientemente ou não. Nas situações de aprendizagem, parece-nos necessário compreendê-las até chegarmos aos jogos de regras e nos instalarmos, definitivamente, neles.
Isso porque certamente nos tornaremos indivíduos mais fortalecidos se aqueles jogos de exercício foram exercitados nos nossos processos mentais para aceitarmos o novo que se inaugura a partir- e com - o outro e considerarmos a competição como um elemento que poderá ser, tanto quanto o exercício do jogo, um prazer.

2009-05-18

AUTOR E AUTORIA

COMENTÁRIOS SOBRE OS TRECHOS DO TEXTO DE CARLOS ALBERTO FARACO SOBRE AUTOR E AUTORIA



"Este último é, para Bakhtin, um constituinte do objeto estético (um elemento imanente ao todo artístico) - mais precisamente, aquele constituinte que dá forma ao objeto estético, o pivô que sustenta a unidade do todo esteticamente consumado." (p. 37)



" Mesmo que a voz do autor-criador seja a voz do escritor como pessoa, ela só será esteticamente criativa se houver deslocamento, isto é, se o escritor for capaz de trabalhar em sua linguagem permanecendo fora dela." (p. 40)



"Posto em termos de linguagem, o princípio da exterioridade (a lógica imanente da criação estética) demanda do escritor que ele desista de sua linguagem, saia dela, liberte-se dela, olhe-a pelo olho de outra linguagem, desloque-a para outrem ao mesmo tempo em que se desloca para outra linguagem" (p. 41)



"Para ele, a autobiografia não é (e não pode ser) um mero discurso direto do escritor sobre si mesmo, pronunciado do interior do evento da vida vivida. Ao escrever uma autobiografia, o escritor precisa se posicionar axiologicamente frente à própria vida, submetendo-a a uma valoração que transcenda os limites do apenas vivido." (p. 43)



FARACO, Carlos Alberto. Autor e Autoria. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: Conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005, p. 37 - 60
Postado por Márcia às 10:29 dia 15/5/2009



O autor- criador é fundamentalmente uma posição axiológica. É alguém que transita em território diferente do autor-pessoa para que possa estabelecer essa relação axiológica com o herói. Ele agrega valores e constitui o todo, mas somente poderá fazer isso se houver esse deslocamento de linguagem, essa exterioridade. Nesse sentido, conforme aponta o texto, mesmo em uma autobiografia haverá esse deslocamento, pois o autor-criador estará vendo e estabelecendo relações axiológicas sobre sua própria vida. ,“O espelho reflete uma face de nosso exterior e não nós mesmos.”, conforme afirma Bakhtin.
A realidade vivida pelo autor-pessoa é transposta para o plano da obra, mas não como se lhe apresentou: passa pela refração e pela valoração, agora não mais na voz do autor-pessoa, mas nessa segunda voz, do autor-criador, que fará uma transposição e uma reorganização dos eventos da vida.
O autor-criador provoca um deslocamento de tal forma que suas idéias passam a ser do herói. Sua posição axiológica demonstra um modo de ver o mundo, direcionando seu olhar. Para isso, é necessário que promova um distanciamento.
Nas minhas produções de texto, percebo que é mesmo possível e real essas manifestações de vozes- elas se estabelecem no texto, mas nem sempre esse autor-criador percebe sua manifestação. Nos escritos dos alunos, na faixa-etária com a qual trabalho - 11,12 anos- talvez o estudante permita muito pouco que esse autor-criador se manifeste. Seria essa atitude consciente? Como será possível submeter o texto deles a uma relação axiológica? Será possível? Será necessário, antes, que ele compreenda que a todo instante o homem está julgando, que ele está julgando.

2009-05-09

Barthes- A morte do autor

Sobre os trechos de Barthes:


Na escritura múltipla, com efeito, tudo está para ser deslindado, mas nada para ser decifrado; [...]" (p. 63)

"[...] um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar onde essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se disse até o presente, é o leitor: o leitor é o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que é feita uma escritura; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino, mas esse destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia; ele é apenas esse alguém que mantém reunidos em um mesmo campo todos os traços de que é constituído o escrito." (p. 64)

BARTHES, R. A morte do autor. In: ______. O Rumor da Língua, São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 57-64.

Muitas são as possibilidades de interpretações de canções. Vários estudiosos se arriscam na tentativa de buscar significados do que determinada letra de música quer dizer.
Na mesma razão, podemos encontrar o autor dessas canções surpresos com os significados interpretados: quando compuseram, não tiveram a intenção de dizer o que os leitores estavam interpretando.
A reflexão que me vem à mente é: perdeu, então, o texto o seu objetivo? Se havia um universo de experiências acumuladas e transformadas, pelo autor, num escrito e ele buscou compartilhar com o leitor -por motivos diversos-, ao perceber o texto chegando ao leitor de maneira diferente, o que aconteceu nesse caminho?
O trecho de Barthes abre uma real possibilidade de compreensão dessa trajetória: “ a unidade do texto não está na sua origem, mas no seu destino”- o leitor. E sobre ele não se tem qualquer controle, já que será a partir de suas experiências que irá compor sua compreensão do que o texto quis dizer.
Então, o texto não perdeu seu objetivo- ao abrir essa possibilidade de compreensão para o leitor, é que aparecerá a constituição do escrito- ou seja: será exatamente diante dessas interpretações que o texto se consolidará porque reunirá todo o leque de possibilidades que apresentar.
A imagem mais didática que pode explicar essa diferença entre escritor e leitor é aquela da convergência e difusão (abrir/fechar)- o autor converge suas experiências e apresenta um produto de tudo o que se lhe apresentou. Contrariamente a esse movimento, situa-se o leitor: ao encontrar esse ponto dado pelo autor, ele o amplia, criando novas possibilidades para o mesmo texto.

2009-05-06

A explicação do jogo


“...Do ponto de vista do significado, o jogo permite ao sujeito reviver suas experiências vividas e tende mais à satisfação do eu que à sua submissão do real. Do ponto de vista do significante, o símbolo oferece à criança a linguagem pessoal viva e dinâmica, indispensável para exprimir sua subjetividade, intraduzível somente na linguagem coletiva....”



“...Já se viu que o jogo de regras marca o enfraquecimento do jogo infantil e a passagem ao jogo propriamente adulto, que não é mais uma função vital do pensamento, na medida em que o indivíduo se socializa. Ora, o jogo de regras apresenta precisamente um equilíbrio sutil entre a assimilação ao eu- princípio de todo jogo- e a vida social. Ele é ainda satisfação sensório-motora ou intelectual e, ademais, tende à vitória do indivíduo sobre os outros. Mas essas satisfações são, por assim dizer, tornadas legítimas pelo próprio código do jogo, que insere a competição numa disciplina coletiva e numa moral de honra e do fair-play....”




PIAGET. Jean. A explicação do jogo. In: A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: LTC, 1990.



Joguei muito pouco em aula. Talvez por isso não promova mais jogos para meus alunos. A função do jogo muda conforme a idade, como verificamos nas situações acima transcritas, mas a satisfação do jogo permanece- por si só ele cumpre a função de equilíbrio- assimilação do eu e vida social. Ao montar gincanas para os alunos sobre determinado conteúdo, sem dúvida percebo exatamente essa satisfação intelectual.
A competição decorrente desse jogo talvez gere problemas, já que somos motivados por esse espírito de vitória e talvez aí enfraqueça sua função.