2009-05-18

AUTOR E AUTORIA

COMENTÁRIOS SOBRE OS TRECHOS DO TEXTO DE CARLOS ALBERTO FARACO SOBRE AUTOR E AUTORIA



"Este último é, para Bakhtin, um constituinte do objeto estético (um elemento imanente ao todo artístico) - mais precisamente, aquele constituinte que dá forma ao objeto estético, o pivô que sustenta a unidade do todo esteticamente consumado." (p. 37)



" Mesmo que a voz do autor-criador seja a voz do escritor como pessoa, ela só será esteticamente criativa se houver deslocamento, isto é, se o escritor for capaz de trabalhar em sua linguagem permanecendo fora dela." (p. 40)



"Posto em termos de linguagem, o princípio da exterioridade (a lógica imanente da criação estética) demanda do escritor que ele desista de sua linguagem, saia dela, liberte-se dela, olhe-a pelo olho de outra linguagem, desloque-a para outrem ao mesmo tempo em que se desloca para outra linguagem" (p. 41)



"Para ele, a autobiografia não é (e não pode ser) um mero discurso direto do escritor sobre si mesmo, pronunciado do interior do evento da vida vivida. Ao escrever uma autobiografia, o escritor precisa se posicionar axiologicamente frente à própria vida, submetendo-a a uma valoração que transcenda os limites do apenas vivido." (p. 43)



FARACO, Carlos Alberto. Autor e Autoria. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: Conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005, p. 37 - 60
Postado por Márcia às 10:29 dia 15/5/2009



O autor- criador é fundamentalmente uma posição axiológica. É alguém que transita em território diferente do autor-pessoa para que possa estabelecer essa relação axiológica com o herói. Ele agrega valores e constitui o todo, mas somente poderá fazer isso se houver esse deslocamento de linguagem, essa exterioridade. Nesse sentido, conforme aponta o texto, mesmo em uma autobiografia haverá esse deslocamento, pois o autor-criador estará vendo e estabelecendo relações axiológicas sobre sua própria vida. ,“O espelho reflete uma face de nosso exterior e não nós mesmos.”, conforme afirma Bakhtin.
A realidade vivida pelo autor-pessoa é transposta para o plano da obra, mas não como se lhe apresentou: passa pela refração e pela valoração, agora não mais na voz do autor-pessoa, mas nessa segunda voz, do autor-criador, que fará uma transposição e uma reorganização dos eventos da vida.
O autor-criador provoca um deslocamento de tal forma que suas idéias passam a ser do herói. Sua posição axiológica demonstra um modo de ver o mundo, direcionando seu olhar. Para isso, é necessário que promova um distanciamento.
Nas minhas produções de texto, percebo que é mesmo possível e real essas manifestações de vozes- elas se estabelecem no texto, mas nem sempre esse autor-criador percebe sua manifestação. Nos escritos dos alunos, na faixa-etária com a qual trabalho - 11,12 anos- talvez o estudante permita muito pouco que esse autor-criador se manifeste. Seria essa atitude consciente? Como será possível submeter o texto deles a uma relação axiológica? Será possível? Será necessário, antes, que ele compreenda que a todo instante o homem está julgando, que ele está julgando.

Um comentário:

Márcia Fortunato disse...

Marcly, seu comentário está ótimo! E nos chamma ao diálogo. Primeiro, fique atenta ao que você disse: "O autor-criador provoca um deslocamento de tal forma que suas idéias passam a ser do herói." Nem sempre. Aliás, segundo Bakhtin, a polifonia é exatamente o contrário disso. Vamos discutir isso em aula.
As questões que você colocou ao final são ótimas. Vou tocar apenas num ponto: a relação axiológica com o objeto de que tratamos em um texto requer um posicionamento crítico do autor diante desse objeto de que trata. A questão então é saber se os estudantes estão familiarizados com essa prática. Essa é uma compreensão de autoria essencial, porque diz respeito à atuação do autor no plano ideológico do texto. Mas esse não é o único plano em que a autoria se constitui. Importante pensar nisso e nas formas de sua aprendizagem. Creio que esse debate ficará melhor se posto em aula, não acha?
Beijo, Márcia.