2009-06-17

Procedimentos de autoria

Não é tarefa fácil ensinar a produção. O texto PROCEDIMENTOS de AUTORIA traz boa contribuição para esse ensino, uma vez que esclarece desde o início da situação de produção, os objetivos- o quê?, por quê? e para quem se escreve, e a necessidade do planejamento durante todo o processo. “Planejar implica tecer representações dos problemas e das suas possíveis soluções.” (FORTUNATO, p.3) e “as representações se alteram o tempo todo; já que recorrem à memória, ao contexto de produção e à retomada do problema inicial.”
Outra questão que me chamou a atenção foi para o tamanho do desafio a que estamos expondo nossos alunos. Ele precisa ser equilibrado para que o autor se sinta estimulado a escrever.
Assim como o planejamento, a representação do problema está em constante processo de revisão. A projeção de uma rede particularmente rica de objetivos para influenciar seus leitores é recurso que os escritores experientes utilizam. Assim, é necessário auxiliarmos nossos alunos para estejam constantemente revendo os objetivos de comunicação da escrita, para que se possa firmar, também, a constituição da autoria. Em todo enunciado, a imagem do autor é sempre uma representação. Ter conhecimento disso pode auxiliar aquele que escreve, pois ao contarmos para alguém algo que vivemos, organizamos os fatos e transformamos nossa memória em discurso. Daí a nossa singularidade não estar naquilo que somos ou em nossas ações, mas no nosso discurso. O tempo todo nosso discurso é representação.
A representação do conteúdo é orientada pelas representações do gênero do texto a ser escrito. É o gênero que define os primeiros e mais importantes limites do conteúdo em função da esfera social em que circula. O conteúdo de um texto não está somente no plano semântico, mas também no plano formal e material. Isso significa que diante dos objetivos de escrita, será necessário que como professores, não restrinjamos a escrita de nosso aluno apenas para o professor- o texto tem sua função social e precisa ser lido por mais de um leitor.
Algumas dificuldades aparecem: os jovens, ao produzirem texto sobre tópico que pouco dominam ou gênero que desconhecem, pode ser maior a dificuldade, pois não possuem muitas representações que possam ser usadas como referência. O que também nos soa verdadeiro e pertinente, já que sabemos da importância de “alimentarmos” nosso aluno com essas representações, tanto no nível do conteúdo quanto do gênero do qual se utilizará para sua representação.
O escritor trabalha com duas restrições: da língua e do gênero. A primeira, pelo fato de ela representar o meio material em cujo âmbito o escritor se limita a operar; e a segunda, por ele estar submetido a uma esfera de circulação. Diante dessas restrições, o autor necessita negociar enquanto escreve. E ter competência escritora é saber gerenciar essas restrições, explorá-la e transgredi-las. Para tanto, antes, será necessário conhecê-las.
A escolha do gênero é indicativa de uma intenção. Encontrar a forma adequada para representar o conteúdo é, de certa forma, compatibilizar os recursos que darão ao texto sua condição de textualidade em resposta aos objetivos estabelecidos.
A revisão funciona como atividade de reflexão- momento em que há distanciamento do objeto para análise do que foi feito para que haja ajustes. Obriga o escritor a observar a forma.
O ponto em que dúvidas apareceram foi sobre a gestão de processos- esquemas ou rascunhos podem engessar demais. E daí fico com a pergunta: como posso atuar para que meu aluno se sinta confortável e criativo para a escrita?

Um comentário:

Márcia Fortunato disse...

Marcly, ao tomar conhecimento desses estudos, fiquei como você: uma mescla de surpresa e preocupação com a complexidade do trabalho que uma produção de texto demanda do escritor e o reflexo desse conhecimento para o ensino.
Na próxima aula vamos conversar um pouco sobre o assunto e também vamos retomar as questões que ficaram sobre a gestão de processos, muito pertinentes porque são muito importantes para selecionarmos estratégias de ensino.
Beijo, Márcia.